terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Mundo, aí vamos nós!

Sabe quando a gente passa por um momento difícil, diante de um NÃO daqueles que a vida nos dá, e as pessoas nos dizem que foi melhor assim, que "não era para ser" e que algo melhor está reservado para a gente? Nessas horas de derrota, esse papo soa como conversa para boi dormir e não nos consola. Nos sentimos a pior criatura do mundo diante de uma frustração enorme, tentando entender onde erramos e porquê aquilo aconteceu com a gente. Na hora em que estamos assim, nos sentindo no fundo do poço, a sensação que temos é que não somos capazes e estamos sendo castigados por alguma coisa ruim que devemos ter feito no passado, ou na outra encarnação, por mais descrentes que sejamos na ideia de outras vidas.

Em março do ano passado, quando estava prestes a defender minha dissertação no Mestrado, passei por um momento desses. Sem que eu conseguisse entender, perdi uma oportunidade que eu aguardava há tempos. Por uma daquelas artimanhas inexplicáveis do destino (ou do acaso), me confundi nos horários da prova de uma seleção para professor substituto na UFSM, e cheguei pouco mais de 10 minutos atrasada no local em que seria definida a ordem do sorteio dos pontos para a prova didática. Esses 10 minutos, que superaram a tolerância dada para que todos os candidatos chegassem, me renderam uma das maiores frustrações que vivi na minha vida. Além de ter me confundido com o horário, a pessoa que ficaria com minha filha se atrasou, fazendo com que eu saísse de casa bem depois do horário que pretendia.

Como eu disse, estava prestes a defender a dissertação do Mestrado. Para ser mais específica, o sorteio a que me referi ocorreu um dia antes da minha defesa. Quando foi divulgado o edital desse concurso, ainda que fosse para um contrato temporário, fiquei muito animada, pois seria minha chance de ter minha primeira experiência efetiva como docente no ensino superior. É a primeira vez que falo disso publicamente. Sempre foi doloroso tocar nesse assunto. Cursei o Mestrado com bolsa da Capes, depois te ter largado um emprego onde estava por 7 anos e um cargo obtido por meio de concurso em outra cidade. Foram escolhas feitas com o coração, mas que representaram mudanças não só em minha vida, mas na vida de minha filha e de pessoas que estão à nossa volta. Cada escolha envolve renúncia, desafio, dificuldade. Mas envolve também apostas que fazemos em nós mesmos, no nosso futuro.

Quando percebi minha confusão em relação ao horário, naquele dia 10 de março de 2011, meu sentimento foi de derrota. Os abraços e palavras de conforto que recebi dos colegas mais próximos, da minha orientadora, e do meu namorado, me ajudaram naquele momento a enfrentar a frustração, mas eu ouvia aquelas palavras apenas como tentativas de consolo. Lembro que várias dessas pessoas me disseram que algo muito melhor viria para mim, que o que ocorreu talvez fosse para meu bem, mas ninguém leva isso a sério na hora.

O fato é que, por mais que estivesse triste e frustrada, não desisti. No outro dia, estava defendendo minha dissertação, e cumprindo minha jornada no Mestrado. Os dias passaram, surgiu uma oportunidade de emprego e lá fui eu voltar ao mercado de trabalho. No período em que trabalhei em uma agência de comunicação, aprendi muito, conheci pessoas legais e outras nem tanto, me frustrei e vivi alegrias, e obtive mais uma experiência profissional muito rica para meu currículo profissional e acadêmico. Quando foram abertos editais para concurso na área docente, resolvi que estava na hora de seguir em frente, e pedi demissão do meu emprego, contando com o apoio incondicional do meu namorado-marido. Isso ocorreu em outubro de 2011. Depois de algumas semanas de estudo e preparação, obtive a segunda colocação no concurso para professor (a) da Unipampa, em São Borja. Foi como lavar a alma. Pude mostrar para mim mesma que sou capaz e passei a acreditar que algumas coisas realmente "não eram para nós", pois algo melhor estaria por vir.

Como se não bastasse, uma oportunidade que esperava há anos abriu-se pouco tempo depois desse concurso. A Unifra (Centro Universitário Franciscano, de Santa Maria) abriu seleção para uma vaga de docente no Curso de Jornalismo, com exigência de experiência na área de tecnologia digital, experiência que tive na agência na qual trabalhei depois de ter perdido a chance de participar do concurso para professor substituto na UFSM. Sei que muitos candidatos enviaram currículo (ouvi falar em mais de 20), dos quais apenas alguns (cerca de 7) preencheram os requisitos do edital e foram chamados para a prova didática, realizada na semana passada. Desses, um número ainda menor foi chamado para entrevista com a Reitora. Passei a tarde desta segunda, dia 16 de janeiro, muito ansiosa, esperando por um e-mail ou uma ligação que desse a resposta sobre o processo seletivo.

Quando recebi o e-mail, fiquei tão feliz que nem acreditava no que lia. Quando fico feliz, sinto uma imensa necessidade de compartilhar com as pessoas. Posto nas redes sociais, ligo para minha família e meus amigos e vou comemorar. Estou nem aí para quem me achar ridícula ou pedante. Não ganhei na mega, não vou ganhar 100 mil por mês, mas cada passo que dou, cada conquista tem um sabor muito especial porque são fruto apenas de trabalho, dedicação, teimosia (ou insistência) e amor pelo que faço.

Me orgulho de realizar meus sonhos desse jeito, pois é o jeito que aprendi com meus pais e que estou tentando ensinar à minha filha. Nunca vi o sucesso como algo a ser alcançado, como um topo a ser atingido, mas como um percurso a percorrer, um caminho no qual vamos encontrando dificuldades a serem superadas, uma a uma, e a cada superação temos um gosto inigualável de vitória. O melhor é superarmos a nós mesmos, e isso só é possível a partir do aprendizado obtido com nossos erros e com as experiências dos outros que já passaram pelo mesmo que nós. 

Para quem está aí pensando na dificuldade de sair do lugar, um dica: apenas se mexa. Dê o primeiro passo. Isso agora parece papo de auto-ajuda, mas é de coração. Sei que nem todos têm as mesmas oportunidades, e por isso mesmo fico muito triste quando vejo alguém reclamar das suas derrotas e, mais ainda, desistindo de tentar, de melhorar e seguir em frente, culpando os outros pelos seus fracassos.

Em três anos minha vida mudou muito. Eu tinha um carro - velho, mas um carro (coisa tão valorizada em nossa sociedade consumista materialista), morava na mesma cidade da minha família, o que me dava uma certa estrutura para cuidar de minha filha, era conhecida no meu trabalho na rádio. Quando mudei para Santa Maria, passei a viver a pé (até emagreci nos primeiros meses) e não tinha apoio de mãe, avó ou quem quer que fosse para me ajudar com a Gabi. Eu não tinha garantia de bolsa do Mestrado, ou seja, não saberia como me sustentar depois que acabasse o seguro-desemprego e o dinheiro da venda do meu Uno 1996. Fiz uns freelas como jornalista, a bolsa veio e tudo deu certo, como planejei. Hoje, tenho uma família aqui, a minha família, e estamos muito bem, obrigada. Estou riquíssima. Não de dinheiro, pode crer. Mas estou rica de sonhos, de aprendizado, de vida, de paixão e amor pelo que tenho e pelo que irei conquistar. Quero o doutorado, quero aprimorar meu inglês, quero ser uma boa professora, quero publicar muitos artigos bacanas, ler coisas legais, viajar, criar minha filha com muito amor, ser mãe de mais um filho, fazer trabalho voluntário e aproveitar muito a vida com meu amor.

Para que não pensem que sou narcisista, saibam que estou muito orgulhosa de uma amiga de infância que se formou, sábado, em Letras. Trata-se de uma jovem mulher de 33 anos, que conheço desde que nasceu, e que tem criado sua filha -hoje com 11 anos - praticamente sozinha, com muito trabalho. Demorou, Kelly, mas conseguiste. Nós, mulheres, quando queremos, somos poderosas. E quando não queremos estar em algum lugar, nada nos segura. Mundo, aí vamos nós!

2 comentários:

Pr. Cláudio Moreira disse...

Querida amiga Luciana:

Achei profundamente tocante teu relato, de uma experiência que, ao menos em parte, acompanhei. Curti a referência no Facebook, mas por experiência própria, sei que um blogueiro gosta mesmo é de comentários no próprio blog. Não poderia deixar de passar aqui e te dizer o quanto ler teu texto me fez bem, de verdade. É bom ver as pessoas do bem vencendo, e mesmo que ás vezes a gente pense diferente sobre muita coisa, tu és inegavelmente do bem. Sucesso pra ti, hoje e sempre.

Luciana Carvalho disse...

Cláudio, acertaste em cheio. Por mais que sejam legais os "likes" e compartilhamentos no Facebook ou no Twitter, o bom mesmo é ter comentário no blog. Aliás, a coisa por aqui anda parada, viu? Mas tua visita e tuas palavras valeram a espera. Obrigada pelo carinho. E ser vista como uma pessoa do bem é muito gratificante. A recíproca é verdadeira! Abração

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